Uma prateleira que chegou de fora
Nos últimos anos, a healing fiction — ou ficção de cura — ganhou espaço nas livrarias brasileiras principalmente por meio de romances traduzidos do Japão e da Coreia do Sul. São histórias em que lugares cotidianos acolhem personagens cansados, relações humanas recebem mais atenção do que grandes reviravoltas e continuar vivendo importa tanto quanto resolver um conflito.
Esses livros encontraram leitores brasileiros antes que o mercado encontrasse muitas vozes brasileiras apresentadas claramente dentro do mesmo segmento. A oportunidade não está em declarar uma ausência absoluta. Está em ampliar a prateleira com cidades, trabalhos, perdas e formas de cuidado que nascem daqui.
Também escrevo healing fiction
Eu escrevo ficção em diferentes registros. Meus livros podem assumir a forma de romance histórico, conto, thriller, ficção especulativa, realismo mágico ou outras combinações que cada história exigir. Healing fiction não substitui esse percurso nem passa a defini-lo por inteiro. Ela se acrescenta a ele.
Com A Pequena Oficina de Consertos, também escrevo healing fiction: uma ficção de cura brasileira, ambientada em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, construída a partir de trabalho manual, vizinhança, culpa, responsabilidade e reparação.
Uma oficina onde consertar não apaga o passado
Na pequena oficina de Ademir Farias, relógios, furadeiras, máquinas de costura, luminárias, brinquedos e toca-discos voltam a funcionar. Algumas vezes, devolvem também um único instante daquilo que testemunharam.
Esses fragmentos não entregam a lembrança de que cada personagem precisava. Não explicam tudo, não desfazem automaticamente relações rompidas e não transformam o reparador num terapeuta. Apenas devolvem uma verdade parcial — e a responsabilidade de decidir o que ainda pode ser feito com ela.
Escrever healing fiction não significa prometer cura. Significa criar espaço para que uma vida continue depois daquilo que a rompeu.
Uma identidade autoral aberta
F. S. Dias não é apresentado como autor de um único gênero. É um escritor brasileiro que trabalha em diferentes formas de ficção e que também passa a ocupar a healing fiction com A Pequena Oficina de Consertos.
O ponto de encontro entre esses registros não é uma etiqueta comercial. É o interesse por memória, percepção, responsabilidade e pelas estruturas silenciosas que alteram uma vida. Cada livro escolhe a forma necessária para chegar até essas perguntas.
A healing fiction já tem leitores brasileiros. A Pequena Oficina de Consertos chega para participar dessa conversa com uma oficina numa ladeira do Rio, objetos gastos pelo uso e uma ideia simples: consertar não devolve o que se perdeu; muda o que ainda pode ser feito com a perda.
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